

Nas fotos: O Gaguinho, que agora virou um presunto, e o Batman, comandando sua malvada Liga da Justiça.
“Morreu na manhã desta segunda-feira, 05 de janeiro, o Gaguinho. Ele foi atacado a tiros enquanto abastecia seu carro em um posto na zona oeste do Rio, e morreu na hora. A polícia afirma que o principal suspeito é o Batman, que fugiu da cadeia no dia 27 de outubro do ano passado, pela porta da frente, depois de pagar o suborno de 2 milhões de reais. O motivo do crime seria uma suposta guerra entre grupos de bandidos, sendo um deles – a Liga da Justiça – liderado pelo Batman.”
Esta poderia ser a manchete do Planeta Diário de uma das 52 Terras paralelas do famigerado universo DC, mas infelizmente não é. Trata-se de uma notícia real, sem nenhuma invenção de minha parte. Eu apenas omiti algumas informações, tais como: o tal Gaguinho era o apelido de Carlos Alexandre Silva Cavalcante, e o Batman é como chamam Ricardo Teixeira da Cruz. Ambos estão ligados às milícias, este flagelo que aflige o Rio de Janeiro há muito tempo, mas que só há uns 5 anos vem sendo tratado como mais uma sujeira na nossa sociedade, e não um bando de vingadores justiceiros que livram as comunidades carentes dos traficantes.
O pior é que muita gente realmente ainda acredita nisso. Acham que é “melhor” ficar sob a égide de milicianos do que de traficantes. Já ouvi isso de pessoas instruídas, colegas professores, mas que nunca viveram em comunidades carentes. Pelo que acompanho pela imprensa, a única diferença entre os milicianos e os traficantes é mesmo o tráfico de drogas, pois todos os outros monopólios – gás de cozinha, gato net, etc – são privilégios de ambos, e ai de quem quiser sabotar o sistema.
Mesmo nunca tendo vivido em comunidades carentes, tenho uma história pessoal sobre o assunto. Há cerca de uns 5 anos, alguns destes vagabundos começaram a se instalar nas redondezas do local onde eu morava. Eles insistiram mais de uma vez para que eu “colaborasse” com a “segurança” da rua, mas em nenhum momento eu sequer pensei nisso, mesmo ouvindo o senso comum dizer que isso não era sensato, que eles iam roubar minha casa. Eu realmente não podia admitir contribuir com este tipo de extorsão velada. Com o passar do tempo, várias casas da redondeza foram roubadas, menos a minha. Imagina meu estado psicológico em saber disso!
Sério, eu surtei. Tive minha primeira – a até agora única – experiência com paranóia. Eu contava os dias para que invadissem minha casa, o vagabundo sempre me encarava quando eu passava na rua – e eu, como sou abusado, encarava ele também. Comecei a achar que, a qualquer momento, eu seria morto por um deles, mas o que eu mais temia era que eles envenenassem meu cachorro durante a noite. Acabou que os anos se passaram, minha casa não foi assaltada, ninguém morreu, eu me casei e saí de lá, a paranóia passou, e recentemente – para meu grande alívio – minha família também se mandou. Só que...
... há pouco tempo eu descobri que minha avó pagava os vagabundos secretamente! Só fiquei sabendo depois que ela morreu, porque minha mulher, que era muito próxima de minha avó, sabia, mas tinha prometido a ela que não ia me contar (“ó mulher infiel!”), pois sabia que eu ia tomar satisfações com eles. Ela disse que minha avó estava com medo que me matassem. Eu só descobri porque, um dia visitando a família, encontrei um “recibo de pagamento” na caixa de correio, aí não teve mais como minha mulher esconder a verdade. Mas minha família já estava de saída do local, e não tinha mais porque eu desafiar forças que estavam além de minhas capacidades, não seria valentia nenhuma, seria só repetir a estupidez que fizera alguns anos atrás – e que me deixou praticamente pirado.
Hoje, escutando rádio, achei graça em ouvir uma notícia tão inusitada como o título desta postagem, mas pensando na seriedade do assunto me vieram todas estas lembranças desagradáveis. Hoje estou livre deste pesadelo, mas milhões de pessoas que não têm outra opção são obrigadas a agüentar esta humilhação – não tem outra palavra para ilustrar a cena de um pai pagando estes canalhas na frente do resto da família. E olha que no meu caso era só a tal da “segurança”, nem rolava estes lances de gás e gato net como nas favelas. Passei por uma situação até leve, comparando com o que acontece com pessoas menos favorecidas, e ainda tive a vantagem de ter condição de me mudar. Das autoridades não espero muita coisa, espero ao menos que quem ainda acredita que as tais milícias são um benefício para a sociedade pense melhor e mude de opinião, para que esta atividade não vire mais uma contravenção socialmente aceita, como o “inocente” jogo do bicho.
Garoto, é admiravel a sua fidelidade pelo que você acredita. Vc preferiu ter medo e alucinações a pagar a esses miseráveis. Só vc se arriscou demais.Aqui é Rio de Janeiro... o cidadão de bem é totalmente impotente. Se eles te fizessem alguma judiaria, sumissem com vc ou fizessem mal ao seu cachorro, tu acha que o poder público iria resolver? Eles agem assim justamente devido as perninhas curtas deste anãozinho que é o poder público nessa cidade.Sério mesmo Fernando, nao vale a pena arriscar quando alguém pode sair da brincadeira machucado (ou coisa pior).
ResponderExcluirMoral da história: o marido é sempre o último a saber.
ResponderExcluirEu concordo com você, Aroldinho, mas é aquela história: pensando racinalmente eu vejo que fiz merda, e não faria de novo, mas na hora do sangue quente, não sei o que faria. Também pensando racionalmente eu não reagiria a assaltos, mas já reagi a dois, ainda bem que não tinha arma em nenhum deles. Não é uma coisa pensada, é o que acontece na hora que a gente fica puto, não dá pra garantir que a gente vá fazer o certo. Sei lá, tomara que este tipo de coisa não aconteça mais comigo, senão pode dar alguma merda.
ResponderExcluirNão é querer ser valente não, querer ser machão, eu realmente fico com medo de acontecer alguma coisa ruim, só que é uma coisa que não dá pra prever, não dá pra agir serenamente numa situação em que tem alguém tentando me agredir, eu não sou um mestre gafanhoto chinês confucionista, sou um neurótico ocidental com a doença da modernidade. Deve ser de família, meu avô já levou porrada de ladrão por reagir, fora aquela vez que ele teve que ser arrancado do carro e ficou xingando o assaltante do lado de fora...
ResponderExcluirDepois que eu escrevi isso aqui, fiquei sabendo de mais uma que minha mulher não tinha me contado (!). A mãe dela recentemente alugou um Pet Shop, disse que chegou um vagabundo e cobrou R$ 45 por semana, mas na cara-de-pau mesmo, não veio com papo de "colaboração" não, falou que ela tinha que pagar e ponto final. E ainda pediu caixinha de fim de ano, é mole? Ela paga semanalmente, mas quanto à caixinha ela se fez de desentendida e deu um panetone pra ele, hehehe. Eu não aguentaria uma humilhação dessa, já teria fechado o estabelecimento ou teria feito alguma merda. Por isso que eu só vendo minhas coisas no Mercado Livre...
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